Curto Papel

Entrevista com Suriani

Os pôsteres de Rafael Suriani estão espalhados por diversos espaços de Paris, cidade que escolheu para viver desde que decidiu cursar Artes Plásticas. O artista brasileiro se inspira na arte urbana e mistura elementos humanos aos de animais para criar suas obras, que já foram reconhecidas por galerias que flertam com a street art. Acompanhe nosso papo com Suriani:

Como você descobriu seu talento para a arte?
Desde criança gosto de desenhar, sempre foi meu passatempo preferido. Na escola, as aulas de educação artística eram para mim um momento de experimentação e de muita diversão.

Você é formado ou fez cursos nessa área?
Sou formado pela FAU-USP, que apesar de ser uma faculdade de arquitetura, é muito aberta às artes gráficas e plásticas. Por isso, fiz questão de estudar lá. Assim que finalizei a graduação, vim para a França, onde fiz um mestrado em Artes Plásticas.

Quando e como o seu projeto com pôsteres começou?
Eu ainda estava na faculdade. No segundo ano, em 2002, eu desenvolvi uma pesquisa sobre arte pública. No começo, ela tratava de monumentos e esculturas, mas logo me interessei pelo grafite, que passava por um momento de efervescência nas ruas de São Paulo. Tudo isso me deu muita vontade de intervir na cidade diretamente, sem autorização e de forma barata. O pôster me pareceu a forma mais rápida, econômica e eficaz. A primeira série foi desenvolvida em formatos menores (A4 e A3) com fotomontagens irônicas, que criticavam a especulação imobiliária da cidade de São Paulo.

Por que você decidiu trabalhar com essa técnica?
Desde pequeno tive um contato íntimo com o papel. Venho de uma família de gráficos, por isso tive acesso a esse universo de maneiras distintas, seja brincando de escalar pilhas de papel ou criando formas com montes de aparas. Portanto, a decisão de usar o papel como matéria-prima em minhas intervenções foi natural. A técnica de colagem urbana, conhecida como paste-up, foi para mim a forma mais adequada de fazer minhas intervenções, pois ela contempla duas etapas: a confecção dos cartazes, que é um trabalho mais intimista e que exige maior concentração, e a colagem nas ruas, que te proporciona adrenalina.

O que te inspira?
Em tudo o que vejo. Sou fã das subculturas urbanas como o movimento punk, a cultura do skate, tatuagens, moda etc. Mas também admiro e busco muita inspiração na História da Arte, além de ser fascinado pela beleza dos bichos, suas peles, plumagens e expressões, assim como por suas habilidades especiais.

Como o grafite influencia o seu trabalho?
Essa arte inspira a liberdade e traz alegria e vida para as cidades! O fato de ser uma arte pública me interessa. Não é preciso conhecimento nem dinheiro para ter acesso ao grafite, é uma manifestação cultural democrática e acessível. Durante alguns anos acompanhei amigos grafiteiros pelas ruas e, além de experimentar as técnicas, pude vivenciar o “espírito” da prática do grafite, que é o da camaradagem e da inclusão. Tudo isso me influenciou muito.

Você já teve problemas decorrentes desse tipo de arte (urbana)?
Eu fui parado apenas uma vez nas ruas de Paris por três policiais. Recebi uma advertência verbal e tive que tirar o pôster que eu havia colado. Eles me advertiram que  se me vissem fazendo aquilo de novo, seriam obrigados a me levar para a delegacia. Aí, eu peguei um ônibus e fui colar meu trabalho em outro bairro!

Hoje em dia, você vive de sua arte? Como isso se tornou uma profissão?
Estou numa fase de transição. Durante muitos anos pratiquei minha arte apenas nas ruas. Desde 2009, recebo convites para expor em espaços culturais e, desde então, comecei a adaptar meu trabalho para esse tipo de local. Hoje, também realizo obras sobre tela ou sobre madeira, que têm sido expostas em galerias. Essas peças são uma mistura de colagem e pintura. Uso diferentes tipos de papéis, como páginas de revistas antigas que acho em mercados de pulgas ou pedaços de cartazes que arranco pelas ruas da cidade. Ao mesmo tempo, trabalho como editor de imagens e designer em uma revista de arquitetura, o que me permite manter o estatuto de artista independente. Mais para frente, penso em me dedicar 100% à arte, realizar projetos em grande escala, workshops etc.

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