Curto Papel

“Papel e lápis são tecnologias fantásticas e únicas” – Gilberto Tomé, designer gráfico

Desde sempre gostei de desenhar, e meu percurso escolar teve muita importância para definir as minhas escolhas. Cheguei ao curso de arquitetura da USP e foi nas disciplinas de história da arte e de programação visual que vislumbrei a amplitude do campo da ilustração, esse casamento entre palavra e imagem, tão rico e fecundo. E permaneço descobrindo novos e velhos mundos através do desenho.

O início da paixão pelo papel

Tenho uma lembrança, reminiscência dos primeiros anos de escola, em que gostava de pegar as cartolinas para fazer um desenho grande que geralmente acompanhava algum texto. Profissionalmente, comecei durante o curso de minha graduação em arquitetura, como free-lancer, ilustrando matérias em pequenos jornais ou produzindo cartazes para peças teatrais.

Minha formação em desenho se deu mais por meio de contato com artistas plásticos, alguns também ilustradores, como Otávio Roth, que foi uma importante referência no meu percurso e que tem uma obra relacionada ao papel bastante significativa. Até hoje gosto de circular pelos ateliês e de me aproximar do fazer de determinado artista, como aprendizado e troca de saberes.

O trabalho com papel

Minha atuação profissional é toda dedicada ao desenho, em diversas áreas: como designer gráfico, desenhando e diagramando cartazes, livros, guias e catálogos; como ilustrador, criando meus próprios livros e participando de projetos de outras editoras; e também como professor, de xilogravura e desenho. A dedicação a cada uma dessas atividades tem variado, ora atuando no estúdio de design que montei em 1996, a Fonte Design, atuando de forma mais comercial e atendendo editoras e galerias de arte, ora trabalhando mais no ateliê, onde dedico-me a projetos pessoais, que veiculo em salões de gravura ou exposições ligadas às artes gráficas.

Os cartazes de rua

Realizo uma pesquisa bem particular sobre cartazes de rua há bastante tempo, recolhendo fragmentos desses impressos e com eles realizando colagens que se desdobram em livros. Gosto de pensar no cruzamento entre esses dois objetos gráficos, o livro e o cartaz, e venho experimentando uma fusão entre eles. O espaço da rua, a cidade como um todo, as pessoas e a vida urbana são os temas desse meu trabalho. Os movimentos que aí ocorrem e suas diversas manifestações gráficas me inquietam e me estimulam a expressar o que vejo e sinto.

O papel na minha vida

O “papel” do papel é fundamental no meu trabalho. É o amigo com quem principio a conversa, que me escuta e responde aos meus gestos, imagens e palavras nele desenhadas. Muitas e muitas vezes sua resposta é imprevista e contundente e muda o rumo da conversa. Assim vamos nos conhecendo. Antes de começar a desenhar, escolhe-se o papel. Pode ser uma escolha aleatória ou bem determinada, mas é sempre uma escolha e o trabalho já começa aí. Gosto das junções de diferentes papéis num mesmo trabalho, nobres e vagabundos, todos dignos, com uma história milenar comum entre eles.

No estúdio, geralmente no final do ano, produzimos vários caderninhos que distribuímos aos amigos, é uma festa! O que mais gosto é de andar com um caderninho, mais um lápis ou caneta, e sair desenhando. E tenho certa compulsão por guardar os desenhos, até mesmo esses que a gente faz quando fala ao telefone, guardo tudo e aprecio ver como esses papéis todos envelhecem, cada um do seu jeito conforme sua “natureza”.

Papel e lápis são tecnologias fantásticas e únicas. Jamais serão substituídos por ferramentas digitais, igualmente fantásticas. Cada tecnologia tem sua luz própria. Nossos meios de expressão se ampliam e se enriquecem, mutuamente. É dessa forma que vejo o papel e a tela do computador: numa potente interação.

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