Curto Papel

Duas histórias de paixão pela arte, o papel e o papelão

Desejos urbanos é um “coletivo de duas”, que surgiu da necessidade de entender a relação com os espaços urbanos por meio da arte. Conheça a história das artistas plásticas Eliza Freire e Priscilla Ballarin!

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Foto de Giovana Pasquini


Eliza

O meu interesse pela arte começou muito cedo. Antes de escrever meu nome, eu já desenhava minhas festas de aniversário, com temas diversos, docinhos na mesa enfeitada, balões e amigas de vestidos. O desenho saciava a minha imensa vontade de fazer muitos aniversários por ano, explorando temas como o “aniversário no universo” com foguetes voando e planetas presos no teto, ou o “aniversário selva” com elefantes e zebras. Desde muito pequena, e até hoje, a arte me seduz pela capacidade de desmontar e recriar o mundo sem regras.

Gosto do papel porque nele muitas loucuras são possíveis, como mergulhar numa taça de martini, boiar no mar entre navios, assoprar destinos em balões, caminhar sobre as estrelas, cultivar jardins para mergulhos.  Durante a minha trajetória, o papel apareceu de infinitas maneiras e percebo que hoje, no trabalho do Desejos Urbanos, exploramos o papel de uma maneira muito mais completa, que abarca suas características físicas (cor, textura, dureza, formato), mas também sua origem, sua utilização anterior, sua presença na sociedade e sua situação de lixo/resíduo.

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Priscilla

Desde muito pequena me interessei pelo mundo das imagens, do fazer manual e das pequenas “invencionices”. Adorava inventar os móveis da casa de bonecas com caixas de fósforos, criar roupinhas, bordar e pintar. O meu primeiro contato com uma obra de arte foi aos 10 anos e lembro de uma vez ter ficado encantada com a quantidade e diversidade de azuis presentes em uma gravura japonesa. Como era possível construir uma paisagem só com azuis? Meus olhos se abriram para as cores do mundo.

Já na adolescência, meu sonho era ter uma câmera fotográfica semiprofissional e uma prancheta de desenho. Entrei no curso técnico de Desenho de Comunicação e essa foi uma das escolhas mais lindas da minha vida. Foi onde eu tive a primeira oportunidade de fazer, estudar, criar, compartilhar e pensar a arte.

Acho que eu fui escolhida pelo papel! A minha leitura de mundo passa por ele. Quando trabalhava em uma gráfica rápida, levava para a casa boa parte das sobras de papel. Achava que daqueles recortes ignorados poderia nascer outro mundo muito mais mágico. Sempre tive pena de jogar papel fora. Sou apaixonada pelo papel, pelas suas texturas, cores, tramas, gramaturas, transparências, camadas e histórias. No coletivo Desejos Urbanos posso brincar muito com isso tudo.

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Desejos Urbanos: a arte saindo do ateliê para as ruas

O coletivo Desejos Urbanos surgiu do desejo de fazer um trabalho artístico fora dos espaços destinados à arte. Queríamos que nosso trabalho saísse do ateliê e fosse para as ruas. Queríamos explorar um trabalho que pudesse interferir na rotina dos pedestres e os fizessem repensar, mesmo que por segundos, a sua relação com a cidade.

O papelão surgiu já em nossa primeira intervenção artística, “Eu, passarinho”. A escolha foi, primeiramente, por questões financeiras. Precisávamos de um material de fácil acesso e reutilizável. No entanto, durante o desenvolvimento dos pássaros para a intervenção, o papelão se revelou fundamental para entendermos o trabalho do Desejos Urbanos, que é de reconectar e ressignificar a relação entre cidade e habitante.

Ao coletar o papelão, pintá-lo e devolvê-lo à cidade em outro formato (no caso, passarinhos), criamos uma nova relação surpreendente, criativa, afetuosa e mais atenta, entre aquele material e o pedestre.

Reutilizamos o papel em quase todas as nossas intervenções: nossos lambes são de recortes de papéis de presente, os barquinhos são de offiset A4 branco, as casinhas de embalagens e de papelão revestidas por retalhos coloridos de papel.

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A prática do imaginar desliga o nosso “piloto automático”

Acreditamos que todo ser humano necessita viver parte da vida de maneira lúdica. O exercício da arte nos possibilita sonhar, fantasiar, desmontar o mundo e criar. A prática do imaginar desliga o “piloto automático” em que vivemos, nos desloca das preocupações diárias e nos permite enxergar a vida a partir de outra dimensão, muito maior e mais completa.

Nossas intervenções ocorrem em lugares inesperados e buscamos trabalhar com o simples, o “banal”, pequeno e delicado. Como um papelão travestido de passarinho, uma folha branca dobrada em formato de barquinho ou pedaços de papéis coloridos que, juntos, caminham entre postes e muros da cidade. O que nos interessa é provocar e despertar a memória lúdica do transeunte. Fazer com que as pessoas vivenciem o encantamento e se desliguem, ainda que por poucos segundos, o olhar viciado do mundo. A partir daí, tudo pode acontecer, e este é o grande poder transformador da arte.

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Para conhecer melhor o trabalho da Eliza e Priscilla, visite o blog Desejos Urbanos ou a fanpage do coletivo no Facebook.