O legado de Ferreira Gullar na literatura brasileira

Relembre a trajetória de um dos maiores escritores do país, que deixará saudades em meio a poesia de suas obras

No dia 10 de setembro de 1930 nascia José Ribamar Ferreira, em São Luís do Maranhão. Com o passar dos anos, o menino maranhense tornou-se Ferreira Gullar, um dos maiores representantes da cultura brasileira do século XX.

Poeta em essência, foi escritor, crítico de arte, comentarista político, biógrafo, memorialista, teatrólogo e ensaísta. Um verdadeiro ícone da produção cultural brasileira.

Poema Sujo
Com a genialidade de poucos, Gullar transformou o inconformismo com as desigualdades sociais em atitude através das linhas de suas poesias e, assim, pôde denunciar questões pouco trabalhadas pela classe artística brasileira.

Um de seus maiores sucessos, Poema Sujo, é exemplo disso. Na obra aclamada, o escritor transformou a sua infância, os seus medos e as lembranças da vida no Maranhão em uma obra prima e premiada.

161205_1
Ilustração: Helder K.

Lançado em 1976, o Poema Sujo tornou-se símbolo de resistência ao regime militar brasileiro. Com cem páginas de poesia e alta expressividade política, a obra só chegou até os brasileiros por meio de uma fita que pertencia a Vinicius de Moraes, trazida de Buenos Aires, onde Gullar estava exilado.

Diante do medo da morte, em meio às ameaças da ditadura, o escritor contou o seu passado, a condição de exilado e a situação em que se encontravam o Brasil e a América Latina naquele momento.

Relembre o poema:

 

Atuação política

(…) toda sociedade é, por definição, conservadora, uma vez que, sem princípios e valores estabelecidos, seria impossível o convívio social. Uma comunidade cujos princípios e normas mudassem a cada dia seria caótica e, por isso mesmo, inviável.
Ferreira Gullar

Sentiremos saudades da trajetória literária e da militância, que sempre caminharam juntas pelas páginas das obras de Gullar. O poeta foi membro do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pela ditadura militar, viveu na União Soviética, na Argentina e Chile. Recentemente, atuava criticamente sobre o cenário político do país, deixando claro suas insatisfações e desapontamentos.

Poesia na música e na televisão
Não bastasse a genialidade na poesia, Gullar ainda aventurou-se, também, na música, quando cedeu versos de seu poema mais famoso para a composição “Trenzinho do Caipira”, de Heitor Villa-Lobos e parte integrante da peça Bachianas Brasileiras nº 2.

Na televisão, o escritor colaborou com a produção dos clássicos “Dona Flor e seus dois maridos”, de 1998, e “Irmãos Coragem”, de 1995.

Escritor premiado

Desde 1950, quando conquistou o primeiro concurso de poesia promovido pelo Jornal de Letras, Gullar acostumou-se com as premiações. Recebeu os prêmios Molière, Saci e outros prêmios do teatro em 1966 com o espetáculo “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, considerada uma obra prima do teatro moderno brasileiro.

Em 2002, foi indicado por nove professores dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2007, seu livro Resmungos ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano. A obra reúne crônicas de Gullar publicadas no jornal Folha de S. Paulo no ano de 2005.

Quatro anos depois, o poeta foi nomeado um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009, pela Revista Época. No ano seguinte, foi reconhecido no prêmio mais importante da língua portuguesa no mundo – o Camões.

Em 20 de outubro de 2011, foi reconhecido mais uma vez pelo Prêmio Jabuti com o livro “Em Alguma Parte Alguma”.

Academia Brasileira de Letras

161205_2
Imagem: G1

Depois de anos dizendo que não aceitaria a honraria de figurar entre os imortais da Academia Brasileira de Letras, Ferreira Gullar candidatou-se e conquistou a cadeira de número 37, em 2014.

A cadeira tem como patrono o poeta e inconfidente mineiro Tomás Antônio Gonzaga e foi ocupada anteriormente por personalidades como Silva Ramos, Alcântara Machado, Getúlio Vargas, Assis Chateubriand, João Cabral de Melo Neto e recentemente pelo ensaísta e curador Ivan Junqueira.